As consequências relacionadas ao desequilíbrio climático mundial vêm deixando sequelas de todo o tipo de ordem. Seja no abastecimento das grandes metrópoles, como no caso da crise do sistema Cantareira em São Paulo, e até nos casos de superaquecimento demonstrado as altas temperaturas na maior parte dos estados brasileiros. Alguns estão com temperaturas beirando a casa dos 50º.
Na região de Bocaina os efeitos do desequilíbrio climático se fazem demonstrar de maneira nunca vista antes. Temperaturas que se estabilizavam entre os 19º e 20º hoje se apresentam em torno dos 24º e 26º. Algo bastante incomum e inédito para a população da serra da Mantiqueira. Os efeitos do aquecimento global na região não apenas modifica a temperatura com ondas de calor, mas, também, afeta diretamente o ambiente hídrico. As nascentes são afetadas, como já pode ser notado na nascente do Rio Grande, que é localizada no município. Seu volume d’água, densidade e profundidade estão diminuindo, e isso pode ser observado também na cachoeira do Rio Grande. Outro fator importante é a devastação das matas ciliares que existem ao redor do rio. Alguns locais onde a água tinha grande profundidade, hoje a água está rasa. Uma realidade que já se instalou na região.
O município de Bocaina está sofrendo com a situação atual da água. E com isso a população é a primeira a ser afetada com a crise de abastecimento e sua principal consequência: a falta d’água. Está faltando água nas moradias, o que afeta o cotidiano da população e das demandas públicas. Essa é uma crise de consequências graves, pois, além de desestabilizar a normalidade social, atinge também a área econômica, já que compromete a irrigação de lavouras e o consumo pecuário.
Em virtude disso a Escola Municipal Álvaro Benfica, através de sua diretora Beatriz Alves de Andrade e de seu corpo docente desenvolveu estudos e projetos com seus alunos do 2º período do ensino fundamental em atividades dirigidas nas áreas de ciências, história e educação ambiental, no sentido de realizar trabalhos de conscientização junto à população visando prepará-la para a economia de água. O movimento dos estudantes teve como coordenador o professor de história e educação ambiental, Erasmo José da Silva. Este trabalho também contou com o apoio integral da Secretária de Educação Municipal, a professora Lucinéia Aparecida Miranda Benfica, que não mediu esforços no sentido de auxiliar a organização.
A Escola Municipal Álvaro Benfica e o movimento dos estudantes contaram com o apoio e parceria da Escola Estadual José de Medeiros (Resende) que gentilmente cedeu a educadora e animadora cultural Flávia Adriana Hartung, a qual realizou ensaios culminando na organização e apresentação de uma peça de teatro em defesa da natureza no dia 12 de setembro. O ato público em defesa da água foi seguido de uma passeata que se manifestou pelas ruas da cidade de Bocaina de Minas. O evento contou com a organização dos alunos de todo o ensino fundamental e também teve a participação do ensino médio.
Segundo o professor Erasmo José da Silva, o movimento iniciado pelos estudantes terá prosseguimento com a elaboração de um projeto de reflorestamento das matas ciliares e da proteção das nascentes, que prevê um levantamento dos pontos mais críticos através de fotos e excursões dos alunos já no ano de 2015.
O principal obstáculo do processo de conscientização é a cultura pré-estabelecida da população mais velha que não acredita na falta d’água local. Esse é um paradigma difícil de ser quebrado, mas essa mudança de comportamento é um desafio que precisa ser vencido.
Antes de o primeiro homem branco chegar à região de Bocaina em busca do ouro, os nativos indígenas batizaram as montanhas de Amantikir que, traduzindo no tronco linguístico macro-gê chama-se “serra que chora”, devido ao grande número de nascentes que jorra de suas encostas. Se essa realidade atual de escassez de água não for resolvida, não será mais a serra a chorar e sim a população e as futuras gerações que irão sofrer como fim da água na região.